Projeto Oceano: análise de publicações brasileiras sobre o oceano

Metodologia

Autoria

Germana Barata Doutora em História Social Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Washington Segundo Doutor em Informática Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict)
Fabio Lorensi do Canto Doutor em Ciência da Informação Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict)
Wadson Rocha Lemos Graduado em Sistemas de Informação Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict)

Introdução

A Década do Oceano foi instituída em 2017, após um extenso relatório sobre o avançado estado de degradação do oceano (United Nations, 2017). Entre 2021 e 2030, os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) se comprometeram a investir nas ciências oceânicas e na produção de conhecimento para reverter esse cenário. Entre os dez desafios estabelecidos estão mudar a relação da sociedade com o oceano (Desafio 10) e desenvolver habilidades, conhecimentos, tecnologias e participação para todos (Desafio 9), a partir do acesso a informações de qualidade — uma agenda que dialoga com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 (Fick; Carneiro, 2024).

O mapeamento da produção científica sobre o oceano é um dos indicadores de como a informação circula no meio acadêmico antes de chegar à sociedade. Levantamentos anteriores, como o Global Ocean Science Report — que inicialmente cobriu 34 países, sem incluir o Brasil (United Nations, 2017), e em 2020 mostrou o país crescendo acima da média mundial (IOC; Unesco, 2020) — e um estudo que identificou 8 mil artigos sobre o ODS 14 (Vida na Água) com autoria brasileira (Bori-Elsevier, 2025), não são padronizados e tratam o oceano de modo limitado: usam bases com baixa representatividade de idiomas, de países do Sul Global e das Humanidades, ou não são realizados periodicamente.

Este painel mapeia a produção científica brasileira sobre o oceano no OpenAlex (Priem; Piwowar; Orr, 2022), fonte de acesso aberto com ampla cobertura temática, que inclui as Humanidades e publicações em idiomas além do inglês. O monitoramento começa em 2018, antes do início da Década, e permite acompanhar a evolução dessa produção, a representatividade das diferentes áreas do conhecimento e sua conexão com os ODS. Diante da relevância desse acompanhamento, os resultados são disponibilizados publicamente na forma deste painel interativo.

Fonte de dados

Os registros foram recuperados do OpenAlex, base aberta e gratuita de metadados sobre a produção científica mundial (Priem; Piwowar; Orr, 2022). Foram considerados artigos e revisões publicados a partir de 2018 com ao menos um autor vinculado a instituição brasileira.

Estratégia de busca

A busca combina duas estratégias: (1) uma busca textual no título e resumo, que exige ao mesmo tempo um termo ligado ao mar ou ao oceano e um termo ligado a meio ambiente, biodiversidade, clima, comunidades costeiras, economia azul ou temas correlatos, em português e em inglês; e (2) a classificação temática do OpenAlex, incluindo as obras das subáreas Oceanography (1910) e Ocean Engineering (2212).

A consulta pode ser reproduzida diretamente na interface do OpenAlex: abrir a consulta no OpenAlex ↗. A consulta completa, em OQL (a linguagem de consulta do OpenAlex), é:

works where year >= (2018)
  and country is (BR [Brazil])
  and type is (article or review)
  and (
    title/abstract has (
      (
        mar or marinho or marinha or marítimo or oceano or oceânico or costeiro
        or offshore or sea or marine or maritime or ocean or oceanic or coastal
        or offshore
      )
      and (
        "meio ambiente" or ambiental or peixes or espécies or fauna
        or biodiversidade or recifes or corais or comunidades or pescadores
        or ribeirinhos or populações or preservação or conservação or poluição
        or aquecimento or "mudanças climáticas" or "desenvolvimento sustentável"
        or "economia azul" or "currículo azul" or "carbono azul"
        or "escolas azuis" or areia or environment or environmental or fish
        or species or fauna or biodiversity or reefs or corals or communities
        or fishers or riverside or populations or preservation or conservation
        or pollution or warming or "climate change" or "sustainable development"
        or "blue economy" or "blue curriculum" or "blue carbon"
        or "blue schools" or sand
      )
    )
    or subfield is (1910 [Oceanography] or 2212 [Ocean Engineering])
  )

Coleta

Os dados foram extraídos pela API do OpenAlex com o script collect_openalex.py. Como a API de filtros não permite combinar filtros diferentes com “ou”, a consulta foi executada em duas buscas — a textual (title_and_abstract.search) e a por subárea do tópico principal (primary_topic.subfield.id) —, ambas com os filtros de ano, país (authorships.countries:BR) e tipo. Os resultados foram unidos e deduplicados pelo identificador único de cada obra no OpenAlex.

—obras únicas
—na busca textual
—na busca por subárea
—data da coleta

O OpenAlex é atualizado continuamente; uma nova coleta pode trazer números um pouco diferentes. O ano corrente aparece com dados parciais.

Tratamento e indicadores

Os indicadores do painel são calculados a partir dos metadados de cada obra no OpenAlex:

  • Áreas, subáreas e tópicos: a área (field) e a subárea (subfield) vêm do tópico principal da obra; o gráfico de tópicos considera todos os tópicos atribuídos (até três por obra).
  • Autores, instituições e países: cada obra conta uma vez para cada autor, instituição ou país distinto (contagem integral), por isso as somas podem ultrapassar o total de obras. Autores são identificados pelo ID do OpenAlex, com ORCID quando disponível.
  • Colaboração científica: obras com autores de um único país (Brasil) são consideradas nacionais; com dois ou mais países, internacionais.
  • Acesso aberto: segue o oa_status do OpenAlex — diamante, dourado, verde, bronze, híbrido ou fechado; é aberta toda obra que não está como fechada.
  • Fontes: periódico ou repositório da localização principal da obra no OpenAlex.
  • ODS: associação automática feita pelo classificador do OpenAlex a partir do título e do resumo, com escore mínimo de 0,4; uma obra pode ter mais de um ODS.
  • Citações: usadas apenas para ordenar a listagem das publicações.

Gênero dos autores

O gênero é uma previsão estatística a partir do primeiro nome, não uma autodeclaração. Como a associação entre nome e gênero varia entre países (Andrea, por exemplo, é majoritariamente feminino no Brasil e masculino na Itália), a classificação usa bases diferentes conforme a afiliação do autor:

  • Autores com vínculo no Brasil (e autores sem país informado): base de nomes do Censo Demográfico 2010 do IBGE, na versão organizada pelo Brasil.IO (cerca de 100 mil nomes, com o número de pessoas de cada sexo). O nome precisa ter ao menos 20 registros.
  • Autores só com vínculo estrangeiro: World Gender Name Dictionary 2.0 (WGND 2.0), da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Lax-Martinez et al., 2021), que informa a proporção de cada gênero por nome e por país. O nome é buscado em cada país de afiliação do autor; se os países tiverem classificações diferentes, o autor fica indefinido.

Em ambos os casos, um autor é classificado como Feminino ou Masculino quando ao menos 90% das ocorrências do nome são desse gênero. Ficam como Indefinido os nomes abreviados (iniciais), os nomes ambíguos e os ausentes da base — no caso da WGND, ausentes para o país de afiliação do autor. Não são usados fotos, textos, inteligência artificial generativa nem outras bases de nomes.

O painel apresenta o gênero de todos os autores distintos e o do primeiro autor de cada obra, com um seletor para ver o conjunto geral, apenas autores com vínculo no Brasil ou apenas autores estrangeiros, além de uma tabela com os primeiros nomes e a base usada, para conferência. A indefinição é maior entre autores estrangeiros, sobretudo em nomes de origem asiática e em países com pouca cobertura na WGND, como os da América Latina.

Limitações

  • Os dados dependem exclusivamente do OpenAlex: diferenças de cobertura, atrasos de indexação e inconsistências de metadados (afiliações, acesso aberto, classificação temática) podem afetar os resultados.
  • Não houve verificação humana da aderência temática das obras; o conjunto pode incluir trabalhos com relação parcial ou nenhuma relação com o oceano.
  • A localização principal de algumas obras é um repositório (por exemplo, o Zenodo) e não o periódico em que foram publicadas.
  • A classificação de gênero é aproximada e tem as limitações descritas na seção anterior.

Reprodutibilidade

Todo o processo é aberto e reproduzível. Os scripts de coleta (collect_openalex.py), de classificação de gênero (classify_gender_ibge.py e classify_gender_wgnd_foreign.py) e de geração dos dados do painel (build_dashboard.py), bem como os resultados da classificação, estão disponíveis no repositório fabiocantoadv/decada_oceano_br. O processamento foi feito em Python, e os gráficos usam a biblioteca Vega-Lite.

Declaração de uso de IA

Os procedimentos metodológicos — coleta dos dados na API do OpenAlex, tratamento e cálculo dos indicadores, implementação da classificação de gênero e desenvolvimento do painel — foram assistidos pelo modelo de inteligência artificial Claude Opus 5.5, da Anthropic, utilizado como agente de programação. As decisões metodológicas, a revisão dos resultados e a interpretação das análises são de responsabilidade da equipe de autoria. A classificação de gênero em si não utiliza inteligência artificial: é uma regra determinística aplicada às bases de nomes do IBGE e da WGND, descrita na seção Gênero dos autores.

Referências

BORI-ELSEVIER. 2024: retomada no crescimento da produção científica no Brasil e em outros 51 países. São Paulo: Agência BORI; Elsevier, 2025. Disponível em: https://abori.com.br/relatorios/bori-elsevier-2024-retomada-producao-cientifica/. Acesso em: 11 mar. 2026.

BRASIL.IO. Gênero dos nomes: classificação de nomes brasileiros por gênero a partir de dados do Censo 2010 do IBGE. Disponível em: https://brasil.io/dataset/genero-nomes/nomes/.

FICK, N. S.; CARNEIRO, F. F. B. Ciência e sustentabilidade: análise da contribuição das instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica da Região Sudeste para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Encontro Brasileiro de Bibliometria e Cientometria, [S. l.], v. 9, p. 1-7, 2024. DOI: https://doi.org/10.22477/ix.ebbc.272.

IOC; UNESCO. Global Ocean Science Report 2020: charting capacity for ocean sustainability: executive summary. Paris: Unesco Publishing, 2020. (IOC Policy Series, 2020-1).

LAX-MARTINEZ, G. et al. Expanding the World Gender-Name Dictionary: WGND 2.0. Geneva: WIPO, 2021. (WIPO Economic Research Working Paper, 64). Dados disponíveis em: https://dataverse.harvard.edu/dataset.xhtml?persistentId=doi:10.7910/DVN/MSEGSJ.

PRIEM, J.; PIWOWAR, H.; ORR, R. OpenAlex: a fully-open index of scholarly works, authors, venues, institutions, and concepts. arXiv, 2022. DOI: https://doi.org/10.48550/arXiv.2205.01833.

UNITED NATIONS. The first global integrated marine assessment: World Ocean Assessment I. New York: United Nations, 2017.